Apicultores buscam respostas para morte de 400 milhões de abelhas

@ Joana Colussi/ Marcelo Kervalt - Gaúcha ZH


A morte de cerca de 400 milhões de abelhas no Rio Grande do Sul, de meados de dezembro até agora, reforça um conflito entre dois grandes aliados: a apicultura e a produção de grãos. A aplicação incorreta de um inseticida nas lavouras de soja é a principal suspeita para a morte de 5 mil colmeias – em municípios como Jaguari, Santiago e Mata, na Região Central, Santana do Livramento, na Fronteira, e Cruz Alta e Boa Vista do Cadeado, no Noroeste.

Aldo Machado, presidente da Câmara Setorial da Apicultura da Secretaria Estadual da Agricultura, estima prejuízo de 150 toneladas de mel, 1,7% da produção estimada em cerca de 8,9 mil toneladas. Um dos municípios mais atingidos foi Cruz Alta. 


– O que está acontecendo é um massacre. Da metade de dezembro para cá, mais de mil colmeias morreram somente no município – diz Salvador Gonçalves da Silva, presidente da Associação de Apicultores de Cruz Alta.

A suspeita é de que os vilões sejam os inseticidas com o princípio ativo fipronil, que estariam sendo aplicados na soja durante a floração – período em que o uso desses produtos é proibido por normativas conjuntas do Ministério da Agricultura e do Ibama.


– Ao coletarem o néctar contaminado nas flores da soja, as abelhas infectam o restante da colmeia quando retornam – explica Salvador, que perdeu 200 das 600 caixas de abelhas que produz. 


Esta é apenas uma fração do dano. A estimativa é de que os associados de Cruz Alta encerrem a temporada com 25 mil quilos de mel coletados, quebra de quase 70% da produção, estimada em 80 toneladas. Mesmo com a maior mortandade de abelhas já vista no local, os apicultores evitam notificar a Secretaria da Agricultura, pois a maioria das caixas com os insetos fica em propriedades de sojicultores. 


Os donos das terras cedem espaço para colocação das colmeias em troca de uma porcentagem de mel e dos benefícios que o inseto proporciona às plantas. É o que ocorre com o apicultor Rodrigo Jardim, 32 anos. Suas 70 caixas – 60 delas perdidas – estão espalhadas por 10 propriedades próximas a lavouras de soja. Com a apicultura, Jardim sustenta o filho e a mulher. Aprendeu o manejo com o pai e, desde os nove anos, lida com abelhas:


– A gente arruma as caixas o ano todo, e é triste, quando chega a época do mel, ir lá e não ter nada para colher. Ver as abelhas mortas ou sem força nem para te atacar, voando zonzas.

Adonildo Beck, 74 anos, começou a se dedicar às abelhas quando se aposentou. Nestes 10 anos, garante nunca ter visto nada igual. Pelo menos metade das suas 80 colmeias estão comprometidas, prejuízo de 1 tonelada de mel – a projeção era colher 2 toneladas. Seus apiários estão espalhados por nove áreas e a situação mais crítica foi nas 14 caixas em Boa Vista do Cadeado, município limítrofe de Cruz Alta. Lá, as colmeias que não foram perdidas estão agonizando.


Somente no ano passado, a Secretaria da Agricultura recebeu 30 notificações de mortes atípicas de abelhas no Estado. Em todos os chamados, foram feitas coletas dos insetos mortos. Até agora, foram recebidos resultados de oito análises: todas com algum tipo de resíduo de agrotóxico, entre os quais o fipronil. Neste ano, o órgão recebeu apenas duas notificações: uma de Cruz Alta e outra de São José das Missões, ambas sem laudos concluídos. 


– Vemos um aumento da incidência, fruto da expansão das áreas de lavouras e também da maior conscientização dos apicultores em notificar os casos de mortandade – explica Antônio Carlos Ferreira Neto, diretor do Departamento de Defesa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, que capacitou mais de 50 técnicos nos últimos anos para trabalhar com problemas desta natureza, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), braço de tecnologia e capacitação técnica da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Eduardo Condorelli alerta que o uso do fipronil na fase de floração não é permitido, mas que é preciso investigar se a mortandade foi mesmo causada pelo inseticida:


– A aplicação do produto é recomendada até, no máximo, 40 dias de idade da soja. Mas é importante também levar em consideração que tratamos de ocorrências que precisam ter suas causas muito bem avaliadas


O dirigente pondera que, além da possibilidade de contaminação por produtos químicos, uma série de outros fatores naturais podem levar à mortandade de colmeias.  


@ Foto: Roberto Souza / Especial


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