Carazinhenses criam geladeiras solidárias para distribuir alimentos e livros

@Isadora Stentzler/Diário da Manhã

@Foto: Isadora Stentzler/Diário da Manhã

Irene Saraiva dos Santos, de 68 anos, saiu de sua casa pouco depois das 14h da segunda-feira (19), virando à esquerda na Rua Alferes Rodrigo. Recém havia tomado banho, o que era denunciado nos cabelos molhados e no perfume doce que ainda se podia sentir de forma bem acentuada. Levava nas mãos uma sacola plástica com uma bandeja de alimentos. Chegou frente a um muro cinzento, detrás de um ponto de ônibus, e ali ao canto abriu a geladeira solidária, depositando na primeira prateleira o prato com arroz, maionese, linguiça e carne assada para alguém que dele precisasse.


– Nunca vou esquecer – disse Irene, sobre quando começou a deixar alimentos na geladeira que há dois anos foi instalada entre o muro. “Sempre via muitas pessoas procurando alimentos no lixo. Mas um dia abri a porta e vi um homem abrindo um saco de lixo e enfiando o rosto dentro dele para comer. Quando ele ergueu o rosto tinha muita sujeira nele. Naquela sacola tinha até papel higiênico. E isso mexeu comigo.”


O que deixava na segunda-feira não era o que chamava de “sobras”, mas algo que bem poderia comer à noite e que preferiu doar a quem precisasse de um prato completo sem precisar pagar por ele. “Não me faz falta”, completou Irene. “O que me faz falta é ajudar mais pessoas.”

Há cerca de dois anos é que o empresário Adel Tamimi, de 56 anos, inspirou-se em uma iniciativa semelhante em Porto Alegre e adaptou o muro de onde está sua carpintaria para a alocação da geladeira.


Ele não sabe dizer quantas pessoas já se beneficiaram pelos alimentos da geladeira e nem quantas pessoas já doaram. Mas o que garante é que nestes dois anos a iniciativa tem funcionado e contado com a colaboração de inúmeros desconhecidos.


– Uma vez – lembra-se – uma mulher me agradeceu pela geladeira. Ela estava com duas crianças, os filhos dela, e falou do quanto a geladeira tem ajudado. Também tem pessoas que esperam pelos alimentos. Mas no geral a geladeira funciona sozinha – relata.


Uma vez por semana, um funcionário a limpa, para que armazene bem os alimentos. Ela também está conectada à eletricidade, mantendo as refeições refrigeradas.


Certa vez, Tamimi disse ter encontrado dentro da geladeira uma nota de R$ 50,00. Mas por não ser o objetivo da iniciativa, usou o dinheiro para comprar leite, o que distribuiu ao longo da semana.


Pouco mais de meia-hora que Irene havia doado o prato de comida, na mesma segunda-feira, Tamimi foi à geladeira, mas ali já não havia o alimento. O empresário abriu um discreto sorriso e frisou ali que qualquer um pode fazer a ideia se multiplicar. “Às vezes depois de um churrasco em que sobram alimentos não custa separar algumas marmitas e deixá-las aqui. É uma forma de dividir o alimento com alguém que precisa. E basta se perguntar: Eu comeria isso? Se sim, então pode compartilhar”, defende, com um sorriso mais aberto e seguro.


FOME DE LEITURA


Também no Centro da cidade, cercada pelas ruas Venâncio Aires e Paul Harris, a pequena praça que leva o mesmo nome do homem fundador do Rotary tem uma geladeira marrom desconectada de energia elétrica em que guarda em suas prateleiras livros de toda a sorte.


Não é como a primeira que a praça recebeu, há seis anos. Foi recém-trocada e ainda espera pintura da pioneira da ideia, Eliane Beatriz da Silveira, uma professora de Artes aposentada de 68 anos. Ela e o marido, Nilo Reis Batista da Silveira, de 76 anos, vieram de uma viagem a Itajuba, no litoral catarinense – cerca de 600 quilômetros de Carazinho –, encantados com o movimento espontâneo de entrega e retirada de livros em uma geladeira vista em uma praia da cidade. Como já trabalhavam com a comunidade e o Rotary na restauração e cuidado da praça implantaram a ideia, que hoje é cuidada pela professora de Biologia aposentada Sonia Schmidt, de 71 anos.

– Tem muita gente que passa por essa praça – defende Sonia. “Ela está próxima do Fórum, da Defensoria Pública, do Cartório Eleitoral… então deixamos essa praça convidativa. Por isso nos preocupamos com ela.”


A atividade é feita em conjunto com os vizinhos que, além da geladeira, mantêm a limpeza da praça com corte de grama, implantação de garrafas pet com sacos plásticos para recolhimento de lixo e dejetos de animais e plantio de flores – que ainda esperam fazer.


Eliane cita também que já viu grupo de estudantes ali. E ela os observa. Quando questionada sobre o porquê faz isso, é o marido que intervém. “É só ver o sorriso das crianças! Elas pintam os canecos na geladeira”, diz, com um bordão que exprime o frenesi da iniciativa.

A praça também lembra algo a mais para o casal. Foi ali o palco da última foto de um de seus filhos, que morreu em novembro de 2004.


– Então a praça é nosso xodó – diz Eliane com olhos brilhantes. Ela e Sonia não negam que gostariam de apoio público para a manutenção da praça, mas orgulham-se do seu trabalho: voluntário e sem lucro, o qual acreditam ajudar a deixar Carazinho uma cidade melhor.


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