Cesta básica tem o maior aumento em dois anos

@DiáriodaManhã

A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), revelou que em junho (último dado disponível), pela segunda vez seguida no ano, houve uma elevação do valor do conjunto de alimentos essenciais em 81,48% do território nacional. E a capital gaúcha Porto Alegre amarga a liderança da cesta de produtos mais cara do país, seguida de São Paulo e do Rio de Janeiro. Pelo levantamento da Dieese, os menores valores foram observados em Salvador e Aracaju.

Pelos cálculos do Dieese, em junho de 2018, o tempo médio necessário para adquirir os produtos da cesta básica foi de 89 horas e 56 minutos. Em maio de 2018, a jornada necessária foi de 88 horas e 34 minutos. Em junho de 2017, o tempo necessário era de 90 horas e 43 minutos. No mesmo estudo, o departamento conclui que atualmente o salário-mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 3.804,06, ou 3,99 vezes o salário-mínimo nacional, de R$ 954,00. Quando se compara o custo da cesta e o salário-mínimo líquido, ou seja, após o desconto referente à Previdência Social, o estudo revela que o trabalhador comprometeu 44,43% de sua renda para garantir a compra dos produtos básicos de alimentação.

Greve dos caminhoneiros afetou Passo Fundo

Indo além das projeções anteriores, a cesta básica de Passo Fundo aumentou 4,495% no primeiro semestre do ano, e 3,49% no acumulado de doze meses, passando dos R$ 787,33 de janeiro para encerrar o mês de junho com o valor de R$ 822,72. O custo dos produtos que compõem a cesta básica de uma família típica passo-fundense apresentou uma alta de 0,45% no mês de junho, quando comparado com os preços médios praticados no mês de maio. O levantamento da cesta básica municipal é do Centro de Pesquisa e Extensão da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade de Passo Fundo (CPEAC/UPF), e contabiliza, além dos itens básicos de alimentação, os valores de produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica.

O comportamento do demarcador econômico foi impulsionado pela ascensão abrupta de 4,27% registrada em maio, alcançando seu maior valor desde junho de 2016, quando chegou a custar R$ 845,24, despontando impressionantes 11,54% no primeiro semestre daquele ano e 19,285% no acumulado anual. No último levantamento realizado em fevereiro pelo Diário da Manhã, a cesta básica seguia em queda, chegando a variar seis vezes negativamente e sete vezes positivamente nos últimos doze meses, mas sofreu uma mudança brusca que, segundo o economista e professor da Universidade de Passo Fundo, Julcemar Bruno Zilli, foi causada pelas manifestações que ocorreram em abril. “A coleta da cesta básica é feita próximo ao fim do mês, e a greve dos caminhoneiros ocorreu nesse período também. Então a coleta foi feita exatamente no período em que o mercado, como um todo, estava desabastecido, e com isso, o preço dos produtos, principalmente os perecíveis, estavam muito altos, e isso foi captado nos indicadores da cesta básica de Passo Fundo, e foi comparado com o mesmo indicador em Porto Alegre, o total estadual, de todas as regiões que realizam esse acompanhamento do mercado”, interpreta Zilli.

Zilli acredita que, como foi impactado por um evento específico, provavelmente haverá uma retomada no valor do indicador. “O normal é que, nos períodos seguintes, esse comportamento de aumento recue um pouco. Talvez não volte ao patamar anterior a maio, pois o preço dos combustíveis e o valor dos fretes aumentaram, e isso vai ser repassado para o preço aplicado ao consumidor final. Mas a tendência é que ocorra uma estabilização ou redução nos preços junto com a inflação, exatamente para absorver esse grande aumento”. Ao transportar o valor atual de R$ 822,72 ao poder de compra da família brasileira, fica constatado que a cesta básica do município custa o equivalente a 0,86 salários-mínimos, e que esse dado pouco mudou desde o mesmo período do ano passado.

Leite e farinha de milho puxaram aumento

Esse aumento foi proporcionado pela retomada nos preços de itens de alimentação, que subiram 5,58% no primeiro semestre. Os produtos que mais elevaram seus valores foram o Leite tipo C, Farinha de milho e Arroz, com preços majorados em 15,47%, 2,93% e 2,83%, respectivamente. A soma de todos esses produtos alcançou R$726,16 em junho, correspondendo a 88,33% do total da cesta básica, e justifica o fato de que a queda dos subgrupos de limpeza doméstica (-3,40%), e higiene pessoal (-4,13%), não tenha gerado influência suficiente para conter a alta geral do valor da cesta básica.

Clarita Pagnussatt, de 64 anos, é dona de casa e vende produtos para complementar a renda, e relata que a variação de preços tem criado dificuldades. “Todo dia tenho que sair atrás de tudo, de ovos, de farinha, de leite. Tá sete reais a dúzia do ovo caipira, e antes eu pagava dois reais. O leite era um real e pouco, agora tá mais de R$ 3,50. Menos que isso é difícil, só quando tem promoção, que entram quando não sai o produto”, lamenta.

“O alimento tem uma participação muito grande na cesta básica. A carne, por exemplo, quando aumenta o preço, gera impactos bem significativos, porque ela é utilizada em vários outros produtos. Já o creme dental, pode aumentar hipoteticamente mais de 50%, mas o reflexo dele na cesta básica é pequeno, pois tem seu uso específico”, explica Zilli, que também aponta outros fatores: “Também estão inclusos os alimentos que tem os custos ligado a combustíveis e transporte, e também há os itens que estão no período de entressafra, o que faz com que o preço se eleve bastante nessa época do ano”.

Pagnussatt também reclama que a renda foi comprometida duplamente. “Eu faço capelete, massa, salgados, e outras coisas, e daí tive que subir meus preços também, porque subiu o frango, ovos, farinha, praticamente tudo. E com isso a clientela diminuiu bastante. Minha irmã também faz salgados e doces pra vender, e também reclama que diminuiu tudo. O pessoal tá segurando”.