Cotrijal: 2022, um ano desafiador

Estiagem, calor histórico e uma pandemia que resiste em acabar. Até os economistas admitem: o ano de 2022 iniciou de uma forma que ninguém estava preparado. E no meio do caminho ainda haverá eleições, o que impactará no futuro de todo o país.


Para traçar as tendências deste novo ano e entender o cenário que o agronegócio tem pela frente, o Jornal da Cotrijal entrevistou o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, e o economista da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (FecoAgro/RS), Tarcísio Minetto.

Ambos não maquiam o revés do cenário atual e encaram o problema de frente: a seca trará grandes prejuízos. Porém, apontam caminhos para um ano desafiador, onde os produtores vão ter que mostrar, mais uma vez, toda a garra e determinação para virar o jogo.

ESTIAGEM E A RESPOSTA NO CURTO PRAZO PARA OS AGRICULTORES


Questionados sobre o que dizer para o produtor de soja e milho que, hoje, calcula o prejuízo provocado pela estiagem, ambos os economistas foram enfáticos em ressaltar que o problema não é apenas financeiro, mas psicológico. Ver a safra ser prejudicada pela seca abala o ânimo do agricultor.


Por outro lado, a tristeza precisa ser superada com um plano de ação com resposta no curto prazo. Tarcísio Minetto defende que o primeiro passo é buscar informações com os técnicos e fazer a comunicação com os agentes financeiros em relação ao seguro agrícola ou ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).


"A partir deste ponto, além dos laudos técnicos, o produtor tem que rever seus compromissos, como custeio e investimentos. Não podemos desanimar, tem que reprogramar. A primeira oportunidade para repor essa renda que está sendo perdida no verão é a safra de inverno, a primeira que se aproxima", explica Minetto.


O economista da FecoAgro aponta que em momentos de euforia o produtor tem que analisar bem seus investimentos e, em momentos delicados como o atual, a atenção tem que ser redobrada.


O economista Antônio da Luz relata que o atual processo de descapitalização retarda investimentos, mas defende que a tomada de decisão precisa ser feita em cima da viabilidade dos negócios e não com base no clima sombrio do cenário atual.


“Investimento é um negócio feito para ter maturação no longo prazo e não no curto prazo. Não posso nem entrar na euforia de anos bons e nem tampouco na depressão dos anos ruins. Tenho que enxergar a vida do negócio pela média, como ela é. Entendo que não devemos rever investimentos. Eles precisam ser feitos em uma viabilidade econômica”, avalia.

MENOR OFERTA DEVE ELEVAR PREÇO DA SOJA


Antônio da Luz tem a expectativa de que o preço da saca de soja, ao longo de 2022, se mantenha elevado. O grande ponto de interrogação, segundo ele, é saber quanto o Brasil, maior produtor mundial, vai colher.


A seca prejudica não apenas o Rio Grande do Sul, segundo maior estado produtor, mas também o Paraná, terceiro maior produtor do grão. Além disso, em muitos estados o excesso de chuva também tem castigado as lavouras.


“Teremos uma oferta mundial menor e ela vai diminuir estoques, que é um combustível para novos aumentos de preço na soja. Aqueles que colherem bem é possível que terão uma venda ainda melhor do que se esperava, mas é uma pena que não vão conseguir repetir a boa colheita do ano passado”, reflete o economista.


Minetto lembra que a seca não atinge somente o Sul do Brasil, mas também a Argentina, segundo maior país produtor do continente, o que deve gerar um impacto global e alterar a volatilidade de preço. Somado a isso, o economista sugere atenção para o final do mês de março, quando os Estados Unidos começarem a editar seu relatório de intenção de plantio.


“Dependendo do comportamento do preço de Chicago, o produtor americano vai optar por plantar mais soja ou mais milho. Claro que não é só o preço. A questão da análise de custo de produção será avaliada, pois subiu no mundo todo”, afirma Minetto.

LEITE É O SETOR QUE MAIS PREOCUPA


Os economistas projetam que a atividade leiteira terá um ano difícil. A inflação que diminui o poder de aquisição dos brasileiros, a estiagem no Sul e o excesso de chuvas em estados produtores como Minas Gerais e Goiás são apontados como os vilões do setor.


“O produtor de leite, sem dúvida, é aquele que mais nos preocupa. O consumo de leite ocorre no mercado interno e o brasileiro está sem crescimento econômico. A economia está estagnada e não conseguimos gerar emprego por conta, principalmente, da pandemia de covid-19 e pela inflação galopante que tira a renda do brasileiro e faz com que nosso consumidor de leite esteja menos disposto a comprar o produtor. Ou seja, temos uma demanda fraca”, avalia Antônio da Luz.


Tarcísio Minetto recorda que o setor já vinha enfrentando um alto custo de produção, cenário que deve piorar devido ao fato de não haver mais pastagens de verão, sobretudo, entre os pequenos produtores que estão usando o feno reservado para o inverno. O economista projeta um déficit de alimentação das vacas leiteiras, além de redução na produção e manutenção do custo alto para produzir.


“Pode ser que uma nova ajuda do governo, de R$ 400,00, no Auxílio Brasil, melhore um pouco, assim como a vacinação da gurizada e a volta às aulas aumentem a demanda para reverter, ao menos, a questão de preço. Mas o produtor vai continuar, em 2022, ainda com custo alto e terá que recompor a pastagem no primeiro semestre”, alega Minetto.


O planejamento válido para a produção de grãos é a recomendação também para os produtores de leite. É preciso levar tudo na “ponta do lápis” para garantir rendimento e aproveitar o período de inverno para investir em alimentação de qualidade para o rebanho.

CUSTO DE PRODUÇÃO SEGUIRÁ ALTO


Se o aumento generalizado dos preços já é ruim para a população em si, é ainda pior para os produtores rurais. O Índice de Inflação dos Custos de Produção (IICP) encerrou 2021 com um acumulado de 51,39%, o mais alto da história. Para ter uma ideia do que o isso significa, o maior IICP acumulado no ano havia sido registrado em 2015, de 14,56% (confira o gráfico e o quadro).


Antônio da Luz afirma que a inflação não atinge apenas determinado produto, mas impacta toda a economia. “Por conta da pandemia, o governo imprimiu mais dinheiro e ampliou os gastos públicos, foi necessário, sem dúvida, mas tem efeitos colaterais. A inflação é um deles. Não é só o Brasil que está com dificuldades devido a elevada inflação. Estados Unidos e Europa também”, diz o economista.


No acumulado de 2021, o Índice de Inflação dos Preços Recebidos pelos Produtores Rurais (IIPR) teve alta de 4,92%. O resultado ficou abaixo do IPCA Alimentos que chegou a 7,94%. Isso significa que o aumento dos preços na gôndola não está somente atrelado aos valores recebidos pelos produtores. Existe uma série de processos da porteira até o consumidor final que contribuem para a formação dos preços dos produtos alimentícios nas prateleiras.


Tarcísio Minetto projeta que haverá uma forte demanda por alimentos provocada pela retomada do emprego, o que vem ocorrendo de forma lenta. Mas o custo para produzir preocupa. “Teve insumo que subiu mais de 150%. O aumento do custo de produção para 2022 é bem preocupante, do ponto de vista dos insumos, chegando a superar 50% dos custos da lavoura em relação à temporada anterior”, projeta.

SAIBA O QUE COBRAR DOS CANDIDATOS


Em outubro tem eleição para deputados estaduais e federais, senador, governador e presidente da República. Para Antônio da Luz, é preciso que o agro apresente aos candidatos uma pauta que reivindique investimentos em logística na região Sul, a fim de escoar melhor a safra, maior participação do governo no seguro rural e melhor comunicação a respeito de questões ambientais.


“Também é preciso uma relação melhor com todos os países do mundo, sobretudo, aqueles que são nossos clientes, independente de suas ideologias e regime de governos. Isso não é problema nosso”, pondera.


Tarcísio Minetto defende avanços na defesa sanitária, o que pode abrir novos mercados para o leite, e investimentos em infraestrutura que incluam desde logística até transporte e irrigação. O economista também pede um olhar mais apurado do governo sobre o agro. Ela cita o fato de o percentual do Orçamento da União para o Ministério da Agricultura ser inferior a 1%, enquanto no Orçamento do Estado o setor corresponde a 0,8%.


“Não estou exagerando, é só pegar os números do Orçamento e analisar. Há anos vem nesse patamar. E quando temos um evento climático forte como essa estiagem, que precisa de apoio, temos dificuldade em fazer um estudo de quebra de safra porque não temos recurso em determinadas instituições dentro do governo para fazer o levantamento. É um absurdo”, afirma Minetto.

Fonte: Assessoria de Imprensa e Marketing da Cotrijal