Tentativas de suicídios e mutilações de adolescentes deixam estado em alerta
- Jornalismo Portal NMT

- 1 de set. de 2018
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Coordenador do Programa de Depressão na Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor do departamento de Psiquiatria da UFRGS, o psiquiatra Christian Kieling aponta a importância de os pais estarem atentos aos sinais de mudança de comportamento que possam indicar depressão. Por exemplo, o adolescente que ia bem na escola e que, de uma hora para outra, começa a tirar notas vermelhas. Ou aquele que se nega a fazer o que gostava. Ele destaca dois sintomas principais da depressão usados para a triagem dos que deverão ser avaliados com mais profundidade: alterações repentinas de humor, o humor irritável, e a anedonia, diminuição ou perda da capacidade de sentir prazer.

Kieling frisa que os pais também estão se sentindo excluídos pelos filhos ao serem trocados por aparelhos digitais, como celular e televisão. Sem sucesso na conversa, deixam de tentar contato, tornando o ciclo vicioso.
— Muitas vezes, só conseguir compartilhar com alguém o que está sentindo pode ter um efeito bastante importante para o indivíduo que precisa falar. Por isso, alguém tem de tomar a iniciativa da conversa. E, via de regra, esperamos que os pais tomem esta iniciativa, por terem mais experiências de vida — afirma o médico.
Para a psiquiatra Sara Sgobin, que estuda a automutilação e o comportamento suicida na adolescência, o problema é a transferência de responsabilidade da criação dos filhos para as "babás eletrônicas" (celulares, tablets e TVs). Sara ressalta que o importante não é a quantidade de tempo disponibilizada dos pais para os filhos, mas a qualidade deste tempo. É necessário conversar prestando atenção, de fato, no que os jovens têm a dizer.

— Vejo pais que, ao voltarem do trabalho, se sentam com a família e não estão presentes. A cabeça está no trabalho ou em outras preocupações. Isso atrapalha a comunicação. Quando estiverem com seus filhos, não importa que sejam cinco minutos, estejam com eles de fato, escutando mesmo quando parecer banalidade. E evitem fazer comparações de como o pai ou a mãe faria se a situação ocorresse com um deles. Só comentem se o filho perguntar — recomenda Sara.
O perigo da solidão

As lesões autoprovocadas (tentativas de suicídios e automutilações) passaram a fazer parte das doenças e agravos de notificações compulsórias do Ministério da Saúde em 2011.
Os casos são informados via Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e registrados também pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs). Em 2016, o Cevs criou o Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do RS, com representantes de diferentes secretarias e instituições não governamentais, para discutir e encontrar soluções para o problema.
Segundo a coordenadora do Comitê, Andréia Volkmer, a rede é orientada a informar os casos que entram via serviços de saúde, mas nem sempre todos chegam ao atendimento médico. Andréia sustenta que as notificações dos últimos cinco anos demonstram a existência de um aumento de lesões autoprovocadas entre os adolescentes do Estado e uma sensibilização crescente da rede de saúde à situação.
Em 2013, foram 487 registros de lesões autoprovocadas. No ano passado, 1.872 – o maior número nos últimos cinco anos. As mortes por suicídios também aumentaram nesta faixa etária, comparando-se os dois períodos. Em 2013, 60 foram registradas. Em 2017, o número chegou a 69. Nos primeiros oito meses de 2018, 24 suicídios de adolescentes estão contabilizados.
Em 2017, o Comitê criou o Observatório de Análise de Situação do Suicídio, que estuda por regiões os motivos que levam os gaúchos, incluindo crianças e adolescentes, a se matarem. Conforme a psicóloga Claudia Weyne Cruz, integrante da equipe, o objetivo é construir planos regionais de prevenção:
— Muitas mortes podem ser evitadas quando os sinais de alerta são identificados a tempo. Por vezes, as pessoas veem na morte a única saída para o sofrimento que as aprisiona, mas a vida sempre pode triunfar. Para tanto, o amparo da família e o atendimento em saúde adequado são fundamentais.
O levantamento
Das 1.622 escolas estaduais que responderam ao questionário da Cipave, 357 relataram 1.015 situações de automutilação. Outras 101 confirmaram 169 tentativas de suicídio e seis mortes por suicídio, somente entre janeiro e junho de 2018.
Sintomas de depressão
Alteração de padrão de sono – dorme mais
Alteração de padrão de apetite
Alteração de humor: pode ter choro frequente ou apenas demonstrar a alteração em atitudes mais impulsivas (se era uma criança ou adolescente calmo e passa a demonstrar irritação com situações comuns da rotina)
Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero
Desânimo
Queda no rendimento escolar
Pensamento negativo
Diminuição de prazer
Isolamento
Tédio (não tem nada para fazer)
Uso contínuo de roupas compridas em períodos de calor
Uso de pulseiras para esconder os braços
Causas que podem desencadear a depressão
Abuso de substâncias
Abuso físico e sexual na infância
Bullying
Desemprego, perda recente do emprego ou endividamento dos pais
Dificuldade de integração e socialização na escola
Dificuldades em relação a identidade e orientação sexual
Histórico familiar de transtorno psiquiátrico
Problemas emocionais, familiares e sociais
Rejeição familiar
Situações de luto
Situações de assédio moral
Trabalho infantil
Violência familiar
FONTES: psiquiatras Berenice Rheinheimer, Sara Sgobin e Christian Kieling, psicóloga Claudia Weyne Cruz e manual de bolso do Comitê de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do RS



















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