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Tentativas de suicídios e mutilações de adolescentes deixam estado em alerta


Coordenador do Programa de Depressão na Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor do departamento de Psiquiatria da UFRGS, o psiquiatra Christian Kieling aponta a importância de os pais estarem atentos aos sinais de mudança de comportamento que possam indicar depressão. Por exemplo, o adolescente que ia bem na escola e que, de uma hora para outra, começa a tirar notas vermelhas. Ou aquele que se nega a fazer o que gostava. Ele destaca dois sintomas principais da depressão usados para a triagem dos que deverão ser avaliados com mais profundidade: alterações repentinas de humor, o humor irritável, e a anedonia, diminuição ou perda da capacidade de sentir prazer.

Kieling frisa que os pais também estão se sentindo excluídos pelos filhos ao serem trocados por aparelhos digitais, como celular e televisão. Sem sucesso na conversa, deixam de tentar contato, tornando o ciclo vicioso.


— Muitas vezes, só conseguir compartilhar com alguém o que está sentindo pode ter um efeito bastante importante para o indivíduo que precisa falar. Por isso, alguém tem de tomar a iniciativa da conversa. E, via de regra, esperamos que os pais tomem esta iniciativa, por terem mais experiências de vida — afirma o médico.

Para a psiquiatra Sara Sgobin, que estuda a automutilação e o comportamento suicida na adolescência, o problema é a transferência de responsabilidade da criação dos filhos para as "babás eletrônicas" (celulares, tablets e TVs). Sara ressalta que o importante não é a quantidade de tempo disponibilizada dos pais para os filhos, mas a qualidade deste tempo. É necessário conversar prestando atenção, de fato, no que os jovens têm a dizer.


— Vejo pais que, ao voltarem do trabalho, se sentam com a família e não estão presentes. A cabeça está no trabalho ou em outras preocupações. Isso atrapalha a comunicação. Quando estiverem com seus filhos, não importa que sejam cinco minutos, estejam com eles de fato, escutando mesmo quando parecer banalidade. E evitem fazer comparações de como o pai ou a mãe faria se a situação ocorresse com um deles. Só comentem se o filho perguntar — recomenda Sara.


O perigo da solidão


As lesões autoprovocadas (tentativas de suicídios e automutilações) passaram a fazer parte das doenças e agravos de notificações compulsórias do Ministério da Saúde em 2011.

Os casos são informados via Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e registrados também pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs). Em 2016, o Cevs criou o Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do RS, com representantes de diferentes secretarias e instituições não governamentais, para discutir e encontrar soluções para o problema.


Segundo a coordenadora do Comitê, Andréia Volkmer, a rede é orientada a informar os casos que entram via serviços de saúde, mas nem sempre todos chegam ao atendimento médico. Andréia sustenta que as notificações dos últimos cinco anos demonstram a existência de um aumento de lesões autoprovocadas entre os adolescentes do Estado e uma sensibilização crescente da rede de saúde à situação.


Em 2013, foram 487 registros de lesões autoprovocadas. No ano passado, 1.872 – o maior número nos últimos cinco anos. As mortes por suicídios também aumentaram nesta faixa etária, comparando-se os dois períodos. Em 2013, 60 foram registradas. Em 2017, o número chegou a 69. Nos primeiros oito meses de 2018, 24 suicídios de adolescentes estão contabilizados.


Em 2017, o Comitê criou o Observatório de Análise de Situação do Suicídio, que estuda por regiões os motivos que levam os gaúchos, incluindo crianças e adolescentes, a se matarem. Conforme a psicóloga Claudia Weyne Cruz, integrante da equipe, o objetivo é construir planos regionais de prevenção:


— Muitas mortes podem ser evitadas quando os sinais de alerta são identificados a tempo. Por vezes, as pessoas veem na morte a única saída para o sofrimento que as aprisiona, mas a vida sempre pode triunfar. Para tanto, o amparo da família e o atendimento em saúde adequado são fundamentais.


O levantamento


Das 1.622 escolas estaduais que responderam ao questionário da Cipave, 357 relataram 1.015 situações de automutilação. Outras 101 confirmaram 169 tentativas de suicídio e seis mortes por suicídio, somente entre janeiro e junho de 2018.


Sintomas de depressão

  • Alteração de padrão de sono – dorme mais

  • Alteração de padrão de apetite

  • Alteração de humor: pode ter choro frequente ou apenas demonstrar a alteração em atitudes mais impulsivas (se era uma criança ou adolescente calmo e passa a demonstrar irritação com situações comuns da rotina)

  • Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero

  • Desânimo

  • Queda no rendimento escolar

  • Pensamento negativo

  • Diminuição de prazer

  • Isolamento

  • Tédio (não tem nada para fazer)

  • Uso contínuo de roupas compridas em períodos de calor

  • Uso de pulseiras para esconder os braços


Causas que podem desencadear a depressão


  • Abuso de substâncias

  • Abuso físico e sexual na infância

  • Bullying

  • Desemprego, perda recente do emprego ou endividamento dos pais

  • Dificuldade de integração e socialização na escola

  • Dificuldades em relação a identidade e orientação sexual

  • Histórico familiar de transtorno psiquiátrico

  • Problemas emocionais, familiares e sociais

  • Rejeição familiar

  • Situações de luto

  • Situações de assédio moral

  • Trabalho infantil

  • Violência familiar


FONTES: psiquiatras Berenice Rheinheimer, Sara Sgobin e Christian Kieling, psicóloga Claudia Weyne Cruz e manual de bolso do Comitê de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do RS

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